A rua mais movimentada do mundo passa pelo quarto do seu filho
Existe uma frase, popularizada por especialistas em segurança digital como Graça Gadelha, que define com precisão o nosso tempo: “A internet é a rua mais movimentada do mundo”.
Imagine que você jamais deixaria uma
criança de 8 ou 10 anos sozinha, à noite, no centro de São Paulo. No entanto, quando entregamos um smartphone conectado e fechamos a porta do quarto, é exatamente isso que acontece. O perigo mudou de endereço: ele não pula mais o muro de casa; ele pede permissão para entrar através de um link, um jogo “inofensivo” ou uma mensagem em uma rede social.
A proteção física já não é suficiente. Hoje, proteger passa por monitorar acessos, e de forma simples, saber o que seu filho tem nas mãos para além do tablet ou celular.
A Realidade Brasileira
É comum ouvirmos que a solução é “tirar as telas”. Mas, para a realidade das famílias brasileiras, isso beira a utopia.
Para milhões de pais e mães que enfrentam jornadas duplas ou triplas de trabalho, o celular é por onde checam se o filho chegou da escola, se já jantou ou se precisa de algo enquanto estão no trabalho.
Segundo dados do Cetic.br (TIC Kids Online Brasil), cerca de 95% das crianças e adolescentes brasileiros estão conectados. Para muitos, o celular é a única janela para o conhecimento e socialização.
O debate, portanto, não deve ser sobre se elas devem usar, mas sobre como elas usam. Precisamos, então, migrar da “proibição total” para a “mediação ativa”.
O Brasil está no olho do furacão digital
Não somos apenas usuários; somos recordistas. O Brasil figura consistentemente no topo dos rankings globais de tempo gasto em redes sociais. Essa hiperconectividade traz riscos específicos para o público infantojuvenil:

O Papel dos Responsáveis
Proteger uma criança no mundo digital não exige que os pais sejam engenheiros de software, mas que sejam educadores digitais.
Algumas dicas úteis:
- Estabeleça “zonas livres de internet”: O celular não deve ser companhia na mesa de jantar ou na cama antes de dormir.
- Curiosidade em vez de controle: Em vez de apenas instalar aplicativos de monitoramento, sente e peça para seu filho te ensinar como o jogo ou app funciona. Entenda quem são os “amigos” virtuais dele.
- Aprenda e ensine sobre os riscos: Explique que nada é gratuito na internet e que “pessoas legais” atrás de avatares podem não ser quem dizem ser.
A segurança infantil no século XXI não se faz mais apenas com alarmes em casa e câmeras de segurança, mas com configurações de privacidade e diálogo aberto. Reconhecer que a internet é a nossa nova praça pública é o primeiro passo para garantir que nossas crianças possam usufruir de seus benefícios sem se tornarem vítimas de seus perigos invisíveis.
Referências
- CETIC.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação). Pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024/2025. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil. Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisas/tic-kids-online/.
- NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR). Painel de Indicadores sobre o uso de Tecnologias de Informação e Comunicação no Brasil. 2025.
- GADELHA, Graça. Educação Digital: A internet como a rua mais movimentada do mundo. Instituto iStart / Movimento Família Digital. Disponível em: https://istart.org.br/.
- SAFERNET Brasil. Guia de Segurança na Internet para Pais e Educadores. Salvador: SaferNet, 2025. Disponível em: https://new.safernet.org.br/guias.
- BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Brasília, DF.
- MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS E DA CIDADANIA. Relatório de Violências contra Crianças e Adolescentes no Ambiente Digital. Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, 2026.



